A surpresa maravilhosa do transplante cardíaco – 03/12/2017 – Julio Abramczyk – Colunistas

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A notícia do primeiro transplante de coração, realizado pelo médico Christian Barnard na África do Sul há 50 anos, explodiu na população como uma surpresa maravilhosa.

Para aquela época, a medicina oferecia um novo e mágico tratamento para o órgão do corpo humano que, enquanto funcionasse, manteria a vida.

Muitos tiveram a impressão de que a sua simples substituição faria uma efetiva diferença para a saúde e qualidade de vida das pessoas.

O transplante cardíaco realizado por Barnard, entretanto, não surpreendeu um pequeno grupo de jovens médicos do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP. Eles já treinavam em cães o transplante cardíaco.

No dia seguinte ao primeiro transplante de coração realizado no mundo, dizia-se na faculdade que o professor Euryclides de Jesus Zerbini, que sempre lembrava a equipe da dificuldade dos transplantes pela possibilidade da rejeição do órgão implantado, juntou-se ao grupo. E passou a se preparar para realizar o primeiro transplante cardíaco humano da América do Sul no Hospital das Clínicas.

Muitos meses antes, os médicos Norman E. Shumway e Richard P. Lower, dos Estados Unidos, que haviam estabelecido a técnica adequada para a realização do transplante de coração em humanos –e que possivelmente foi usada por Barnard–, esperavam apenas um doador compatível para um possível receptor.

No dia 3 de dezembro de 1967 Christian Barnard fez o primeiro transplante mundial, mas o paciente morreu por pneumonia 18 dias depois.

Cerca de um mês depois, Shumway efetuou o segundo transplante nos Estados Unidos (o primeiro foi realizado por Kantrowicz em uma criança) e o terceiro no mundo, com sobrevida de pouco mais de duas semanas.

No dia 26 de março de 1968, o professor Zerbini realizou o primeiro transplante cardíaco no Brasil e na América do Sul. O médico Delmont Bittencourt, assistente do professor Zerbini, foi o responsável pela retirada do coração do doador em uma sala de cirurgia do 9º andar do HC. Em outra sala ao lado, o professor Zerbini implantou o órgão doado.

João Boiadeiro (João Ferreira da Cunha), 23 anos, portador de insuficiência cardíaca resistente à medicação, morreu 28 dias depois por rejeição imunológica.

Após a euforia inicial, as seguidas mortes por rejeição do órgão transplantado arrefeceram as esperanças criadas com a histórica cirurgia realizada por Barnard.

Com o advento de uma eficiente medicação antirejeição para o órgão implantado, o ciclo de cirurgias de transplante cardíaco ganhou novo vigor nas décadas seguintes.

Os avanços continuaram, como o coração artificial, que pode ser empregado enquanto o paciente espera um doador, e o transplante conjunto coração-pulmão.



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