Neste Natal, Mariana merece um presente – 24/12/2017 – Marcelo Leite – Colunistas

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Este o terceiro Natal ps-desastre vivido pela gente de Bento Rodrigues, Gesteira, Barra Longa e tantas localidades a jusante de Mariana (MG), na bacia do rio Doce, at o litoral do Esprito Santo. Gente que tem pouco a comemorar.

O rompimento da barragem de Germano, da Samarco, j conta mais de dois anos. Em 5 de novembro de 2015, 32 bilhes de litros de lama levantaram uma onda que matou 19 pessoas, nocauteou flora e fauna de uma bacia hidrogrfica j moribunda e deixou centenas de milhares de habitantes sem gua, dias a fio.

Esse povo precisa de boas notcias. Elas esto demorando, como mostraram reportagens da Folha em novembro, pois a remediao ambiental andou mais que as compensaes sociais e indenizaes.

A Fundao Renova, criada para organizar a recuperao e gerir o mnimo de R$ 11 bilhes que sero tossidos pelas acionistas Vale e BHP Billiton at 2030, tem pela frente um desafio de complexidade mpar na histria da minerao e dos desastres ambientais em sua esteira.

Para quem perdeu parentes, amigos, a casa ou o emprego, isso no desculpa. Tampouco ter soado impressionante a eles o anncio feito em junho de que a Renova contratou para assessor-la nos trabalhos um painel de sete especialistas organizado pela Unio Internacional para Conservao da Natureza (UICN).

A UICN uma ONG internacional de prestgio, responsvel pela composio da Lista Vermelha de Espcies Ameaadas, bblia dos conservacionistas. A chefia do painel ficou a cargo de Yolanda Kakabadse, presidente da WWF Internacional (outra ONG global respeitada) que j foi ministra do Ambiente no Equador.

um presente para Mariana.

Em entrevista coluna na semana passada, Kakabadse se esforou para desfazer o equvoco, frequente na imagem de senso comum sobre ambientalistas, que separa em compartimentos estanques os problemas sociais e os ambientais.

“Para ns, o ambiente no s o fsico”, afirmou Kakabadse. “O rio deveria ser fonte de vida [para a populao], o que ele no hoje. A bacia deve ter uma qualidade que permita s comunidades viver com sade.”
Em outras palavras, o painel no se limitar a propor metodologias e estratgias de recuperao do meio fsico e biolgico. Tambm empregar especialistas –como a sociloga Luiza Alonso, da Fundao Museu do Homem

Americano– para fazer recomendaes de carter social e econmico.

Kakabadse ressalva, contudo, que a UICN e o painel se limitaro ao trabalho de consultoria, como est no termo de referncia acordado com a Renova, sem envolvimento na parte operacional da remediao. Por esse motivo, no acredita que o grupo possa de alguma maneira ajudar a acelerar a marcha das indenizaes e compensaes.

Ela reconhece que o processo tem sido lento, mas diz que o painel no tem como influenciar os obstculos que surgem, principalmente, das errticas instituies governamentais brasileiras. No ser neste Natal que Mariana ver a cor de tal presente.



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