Herpes-zóster, a doença causada pelo vírus da catapora que pode ser ativada pelo estresse – 16/12/2017 – Equilíbrio e Saúde

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Em outubro de 2015, a paulistana Camilla Conde passava por um momento de extrema tenso. Seu empreendimento recm-aberto no bairro de Pinheiros, em So Paulo, havia ido falncia e o seu casamento, chegado ao fim. Com o estresse, a imunidade baixou e a empreendedora desenvolveu um quadro de herpes-zster, uma doena que faz explodir bolhas na pele, causa uma dor aguda e pode deixar sequelas permanentes.

“Eu estava sem dinheiro, com dvidas, desempregada e com uma criana de dois anos para cuidar”, relembra.

Os primeiros sintomas pareciam o de uma reao alrgica. “Percebi algumas bolinhas na regio das costas e achei que fosse uma alergia. Mas elas comearam a aumentar e migrar para a regio do peito. A comeou a doer, e muito”, afirma.

Uma semana aps os primeiros sintomas, Conde foi ao pronto-socorro, mas a mdica que a atendeu desconhecia a doena e receitou uma pomada para herpes simples.

Embora tenham o mesmo nome, herpes e herpes-zster so doenas totalmente distintas. A primeira provocada pelo germe HSV-1, enquanto a segunda resultado da ao do vrus da catapora.

“A pomada no resolveu. As bolhas aumentaram e comearam a estourar”, relembra. Nesse estgio, a dor era “insuportvel”, relembra Conde, que buscou um novo mdico. Dessa vez, com diagnstico certo, ela foi submetida a tratamento e teve de ser afastada por 15 dias do trabalho no qual havia recm-comeado.

A dor aguda, afirma, durou semanas e parte dela permanece at hoje, dois anos aps a doena. “Quando o tempo muda bruscamente, sinto pontadas onde havia as bolhas”, diz.

A HERPES-ZSTER

A herpes-zoster uma doena infecciosa causada pelo vrus varicela-zster –o mesmo responsvel pela catapora. Geralmente adquirido na infncia– momento em que a maioria dos brasileiros manifesta as feridas clssicas e a coceira da catapora -, ele pode ficar anos dormente no organismo e “acordar” a qualquer fase da vida. Quando desperta, o vrus faz surgir dolorosas bolhas pelo corpo.

“O vrus fica alojado em gnglios nas regies do trax ou do abdmen e um dia, por causa da queda da imunidade ou porque a pessoa est mais velha, ele aparece como herpes-zoster”, explica Maisa Kairalla, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Mesmo aqueles que no tiveram catapora na infncia podem desenvolver a doena na vida adulta. “No precisa ter tido a doena, basta contato com o vrus. E a populao brasileira muito exposta a ele –94% est infectada com o varicela-zster”, afirma.

A doena mais comum aps os 50 anos –no entanto, o diagnstico em jovens tem sido frequente, afirma Kairalla. O estresse, diz a mdica, um dos fatores que vem mudando o perfil daqueles afetados pela infeco e fazendo a doena aparecer cada vez mais cedo.

“Estamos vendo a doena em mais jovens, vejo muito naqueles em pr-vestibular”, diz a mdica. “Tudo o que diminui a imunidade pode levar a herpes-zoster. O estresse acorda o vrus.”

A nica maneira de prevenir a infeco, que pode ocorrer vrias vezes, por meio da vacinao. O imunizante, contudo, no 100% eficaz, est disponvel somente na rede privada e custa, em mdia, R$ 450.

TRATAMENTO

A doena pode deixar sequelas, que vo de cicatrizes a cegueira e surdez. Tambm comum a neuralgia ps-herptica, conhecida como nevralgia, uma condio dolorosa que ativada na maioria daqueles que desenvolvem a herpes-zoster e que pode durar vrios anos. A condio pode ser to intensa que afeta movimentos simples, como vestir-se ou levantar-se da cama. essa dor que Conde ainda conta sentir.

O tratamento envolve medicamentos antivirais e analgsicos e, quanto mais cedo o paciente buscar o hospital, maior as chances de sucesso. O princpio ativo utilizado para conter a herpes-zoster, o aciclovir, evita a expanso das leses, mas s tem efeito se tomado at 72 horas aps o aparecimento dos sintomas. Por isso, rapidez na busca de ajuda essencial.

“Aps 72 horas, no pode mais usar o remdio, ento a demora no diagnstico pode levar perda do timing de tratamento. Quando isso acontece, trata-se a dor e as outras caractersticas, mas no a doena”, explica Kairalla.

Porm, o desconhecimento da doena pela maioria dos mdicos e pacientes gera diversas visitas ao hospital –como ocorreu com Conde– o que prejudica o tratamento, afirma Kairalla.

“Em mdia, trs mdicos so procurados para o diagnstico”, aponta, citando dados de um estudo que conduziu em 2012 com 2.030 idosos na cidade de So Paulo, durante seu mestrado na Unifesp.

GRAVIDEZ

A doena tambm pode aparecer na gravidez, uma vez que a gestao afeta o sistema imunolgico da me. Os mesmos mecanismos fisiolgicos para o organismo materno no rejeitar o beb tambm suprimem a resposta imune do corpo –o que abre caminho para o varicela-zster despertar.

O tratamento na gravidez, contudo, fica comprometido. A jornalista Deborah Moratori, de 38 anos, teve a herpes-zster h quatro anos, quando ficou grvida de seu primeiro filho.

Por causa da gestao, no pode tomar a medicao antiviral que evita a expanso das leses da herpes-zster e apenas aplicava pomada nas bolhas. ” uma doena complicada porque muito dolorosa e, com a gravidez, pior ainda, porque voc tem medo daquilo afetar o seu beb”, relembra. Normalmente, a doena no costuma provocar sequelas no feto.

FALTAM DADOS

A herpes-zoster no de notificao compulsria, o que significa que hospitais e postos de sade no precisam comunicar o Ministrio da Sade sobre casos da doena. Com isso, acredita-se que o governo no saiba de fato quantos casos ocorrem por ano.

O Ministrio da Sade hoje apresenta os casos totais de infeco pelo varicela-zster, sem separar o que catapora do que herpes-zster. Em 2016, houve 60.955 casos de varicela no pas, segundo o governo.

O nmero representa uma forte reduo em relao ao registrado em 2012, quando 151.380 pessoas foram diagnosticadas com varicela. A queda mais expressiva foi entre crianas de 1 a 4 anos que, a partir de 2013, passaram a receber gratuitamente pelo SUS a vacina contra a catapora includa na tetra viral –que protege tambm contra o sarampo, a caxumba e a rubola.

No entanto, enquanto os casos de varicela caram 76% em crianas abaixo dos 4 anos em 2016 comparado com 2012, ela aumentou 30% naqueles acima dos 50 anos –que no so imunizados.

Questionado sobre a falta de vacinao para adultos para o varicela-zster, o Ministrio da Sade afirmou que oferece gratuitamente no Sistema nico de Sade (SUS) todas as vacinas preconizadas pela Organizao Mundial de Sade (OMS).

Segundo o Ministrio, tambm no h pedido de incorporao da vacina na Comisso Nacional de Incorporao de Tecnologias no SUS, que avalia os benefcios da oferta de produtos para a populao.

PREVENO

A nica forma de prevenir a herpes-zster por meio de uma vacina contra o varicela-zster na vida adulta. Desde 2014, o Brasil conta com uma, a Zostavax, produzida pela Merck Sharp & Dohme Farmacutica Ltda.

No entanto, o produto est disponvel somente na rede privada e tem indicao apenas para aqueles acima dos 50 anos. Pessoas antes dessa faixa etria, como Conde e Deborah, no so elegveis para o imunizante.

“A bula recomenda a vacina para a partir dos 50 anos e no h estudos sobre o seu efeito em pessoas abaixo dessa faixa etria. Na minha prtica clnica, nunca fiz antes [vacinar uma pessoa abaixo dos 50 anos]”, afirma Kairalla.

A vacina, contudo, no sinnimo de proteo total. De acordo com a fabricante, o produto tem eficcia mdia de 70% –o que significa que trs em cada dez pessoas que tomam a vacina podem vir a desenvolver a doena ainda assim.

No entanto, ressalva Kairalla, sua administrao pode evitar a neuralgia ps-herptica, a condio dolorosa que pode permanecer aps a doena.

Em outubro, os Estados Unidos aprovaram um novo imunizante, a Shingrix, produzida pela GlaxoSmithKline. A vacina tambm recomendada para aqueles acima dos 50, mas promete eficcia maior contra a doena, de 90%. No h previso de quando o produto deve chegar no Brasil.

Conde, que no pode se vacinar, afirma que importante que as pessoas falem mais sobre a doena, que mais comum do que se pensa. Em sua empresa, quatro pessoas j tiveram a herpes-zster e o filho de uma funcionria tambm foi diagnosticado recentemente, diz.

“Isso tem a ver com o nosso estilo de vida, de muito estresse, que est fazendo a doena afetar pessoas mais jovens”, diz. “Acaba sendo mais comum do que a gente imagina, mas algo que a gente s vai buscar saber quando tem porque se fala pouco disso.”



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