Novo livro revela e discute questões sobre a vida sexual de garotas – 26/12/2017 – Equilíbrio e Saúde

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Um dos assuntos que dominou o ano de 2017 na rea da educao foi a “ideologia de gnero”. A proposta aprovada neste ms pelo Conselho Nacional de Educao deixou de fora essa questo e o outra ligadas de educao sexual –os temas no entraram no documento da nova base curricular homologada pelo MEC.

Em tempos como esses, surge o livro “Garotas e Sexo”, da jornalista Peggy Orenstein, para fomentar o debate. A autora entrevistou, em cinco anos, cerca de 70 garotas com idades entre 15 e 20 anos sobre suas experincias sexuais e reflexes sobre o tema.

Apesar de a obra expor o contexto vivido por garotas americanas, existem muitas semelhanas com a realidade brasileira. Assim como aponta a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, que assina o prefcio, tanto l quanto aqui a religio tem um papel influente na iniciao sexual dos jovens.

“Para os religiosos, sexo casual considerado um pecado e existe uma conversa sobre abstinncia”, disse Orenstein Folha. “Mas os jovens continuam fazendo sexo, muito sexo. O problema [de aconselhar a abstinncia] que isso s retarda o incio da vida sexual dos jovens em comparao com quem recebe mais educao sexual, no os deixa mais seguros.”

Segundo a autora, os jovens que optam pela abstinncia, quando iniciam a vida sexual, apresentam mais chances de contrair doenas sexualmente transmissveis e engravidar. ” uma ideia hipcrita, ningum est protegendo esses jovens. Se quisermos que eles faam menos sexo e de forma responsvel, quanto mais eles souberem sobre o assunto, melhor.”

O SEXO DOS JOVENS

27%
dos jovens entre 13 e 15 anos j tiveram relao sexual

59,7%
afirmam ter usado preservativo na primeira relao

60,3%
afirmam ter usado preservativo na ltima relao sexual

68,4%
dos jovens no 9 ano receberam informaes sobre como adquirir preservativo gratuitamente

87,3%
afirmam ter recebido informaes sobre DSTs e Aids na escola

79,2%
afirmam ter recebido informaes sobre gravidez precoce

14,3%
foi o quanto aumentou a deteco de HIV/Aids entre garotas de 15 a 19 anos entre os anos de 2006 e 2016

de 2,4% para 6,7%
foi quanto o ndice aumentou na mesma faixa etria para garotos; ou seja, triplicou

70%
das vtimas de estupro so crianas e adolescentes

36%
de todos os abortos legais foram de adolescentes vtimas de estupro

Fontes: Pesquisa Nacional de Sade do Escolar 2015; boletim epidemiolgico do Ministrio da Sade; Ipea

Por outro lado, mesmo com essas questes nos EUA, a gravidez entre adolescentes por l tem diminudo. No Brasil, o ndice se mantm alto e pouco mudou nos ltimos 10 anos. Segundo o Datasus, a taxa de nascidos vivos de mes menores de 20 anos no pas foi de 21,1% em 2007 para 21,2% em 2016.

Nos Estados Unidos, a mesma taxa caiu 44% entre 2007 e 2015 (segundo ltimo dado disponvel). Os bebs de mes adolescentes representam cerca de 6% do total.

Alm do debate sobre gravidez indesejada e DSTs, Orenstein tambm levanta a discusso sobre qualidade do sexo feito entre os jovens, algo que no entra na cartilha da educao sexual escolar.
Poucas das garotas heterossexuais com quem ela conversou relataram ter tido orgasmos e muitas delas no conhecem o prprio corpo.

“No existe uma conversa sobre prazer e isso uma parte importante quando se fala de sexo”, diz. “Ns esperamos que os jovens tenham uma boa experincia quando eles decidirem fazer sexo, mas acreditamos que isso vai acontecer de uma forma mgica.”

Inspirada em sua prpria experincia como me de uma adolescente de 14 anos, Orenstein escreveu “Garotas e Sexo” para tentar incentivar adultos a conversarem mais com jovens e no deixarem o papel de educar para a televiso ou para a internet

“Ns ficamos com medo de falar sobre sexo porque no sabemos a linguagem certa. O que acontece, no fim, que os filhos crescem mentindo para os pais. o que queremos?”

SEXY

No livro, a autora faz crticas exposio de mulheres na mdia e nas redes sociais e influncia das estrelas pop no comportamento sexual das adolescentes. “A ideia que existe do que ser sexy muito limitada”, opina. “Toda essa performance de parecer sensual na internet no faz com que as garotas tenham mais voz. Com frequncia, a objetificao sexual est ligada a um entendimento menor das garotas sobre seus corpos e suas vontades.”

Por outro lado, a jornalista v com bons olhos a onda de campanhas contra assdio na internet, como a #metoo que revelou casos de abuso sexual na indstria do cinema. “As garotas esto vendo que no esto sozinhas, que suas experincias no foram isoladas, que existe uma cultura em torno desse tema da sexualidade e do sexo”, afirma. “Tudo isso que vemos fez com que as mulheres despertassem em muitos aspectos, principalmente as mais jovens, que lideram os movimentos na internet.”

Para Orenstein, existem duas razes pelas quais inevitvel falar sobre sexualidade sem falar de violncia. A primeira est relacionada a um aspecto cultural polmico. “As pessoas se sentem mais confortveis em ver as mulheres sendo vtimas ao invs de protagonistas, seres sexuais que merecem sentir prazer e podem escolher fazer sexo.”

Em segundo lugar, vm os nmeros. Ela aponta que h um alto ndice de relatos de estupro em universidades. Em 2015, a Pesquisa da Situao no Campus da Associao de Universidades Americanas apontou que pelo menos um tero das alunas de graduao afirmam terem sido vtimas de contato sexual no consentido.

Enquanto isso, o Brasil registrou 135 casos de estupro por dia em 2016, segundo o Frum Brasileiro de Segurana Pblica. Em So Paulo, entre janeiro e julho deste ano, cerca sete registros por dia.
“Muitas garotas muito jovens relatam experincias de estupro e situaes em que elas so coagidas. No sofrer violncia ou coao so exigncias muito baixas para uma experincia sexual, mas o que muitas garotas esperam”, diz a autora.

GAROTAS E SEXO

AUTORA Peggy Orenstein
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 49,90 (274 pgs.)



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