A experiência de quem tem mais de 50 com assédio | Longevidade: modo de usar

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Eu me lembro de ter escrito uma coluna sobre a premiada série “Happy Valley”, protagonizada pela sargento Catherine Cawood (Sarah Lancashire). A filha suicidara-se semanas depois de dar à luz um bebê fruto de estupro, e Catherine criava o neto com medo de que ele se tornasse um psicopata como o pai. Num dos episódios, bebendo com amigas, ela lembra como era comum ser assediada no início da carreira de policial – as mais velhas riem, diante do ar de espanto das mais jovens. Mas era isso mesmo: enquanto fosse possível, a regra era ignorar ou levar na esportiva, na base da “brincadeira que foi mal interpretada”. No meu primeiro emprego como repórter, peguei carona com um ator maduro que teve o desplante de me dizer: “seria maravilhoso possuir uma menina como você”. Argh! Eu estava acompanhando uma gravação de novela no Alto da Boa Vista, um lugar bastante ermo no Rio, e a cantada aconteceu no caminho de volta, numa estrada de pouco movimento. Fechei a cara, fiquei olhando fixamente para a frente e ele se calou. Saltei assim que chegamos ao primeiro ponto de ônibus, apesar do pedido de desculpas e da promessa de que se comportaria. Tenho uma amiga que, depois de um mês recusando convites do chefe para jantar, passou a ser perseguida por ele: as críticas ao seu trabalho eram tão frequentes quanto infundadas. Teve sorte de arranjar outro trabalho e se ver livre do estafermo. Outra ouviu uma frase revoltante mas relativamente comum: “se não der para mim, vai ficar na geladeira”. Ficou no “freezer” por uns tempos, depois trocou de setor e minimiza o fato: “deixa para lá, foi há tanto tempo”. Os dois primeiros energúmenos já morreram; o terceiro aposentou-se e não pode mais exercer seus podres poderes. Em todos os casos, os assediadores se safaram. Nós três fomos agredidas, mas acreditávamos ter lidado bem com a situação. Éramos ignorantes sobre a dimensão da nossa impotência, mas me sinto revigorada pela força desse movimento. Tenho irmãs, sobrinha, neta. Tenho outros amigos e amigas que foram assediados. Nenhum deles deve achar que não existe alternativa a não ser conviver com predadores. Nenhum deles tem mais que se sentir sozinho.





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