Drogas e vacinas não irão derrotar a dengue, afirma médico – 07/01/2018 – Equilíbrio e Saúde

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iluso esperar que o desenvolvimento de medicamentos ou vacinas ser capaz de derrotar a dengue e a zika, defende o infectologista americano Michael Callahan, da Escola Mdica de Harvard.

As interaes complexas entre os diferentes vrus que causam ambas as doenas provavelmente inviabilizam esse tipo de soluo, e o melhor caminho investir em tecnologias precisas de combate ao transmissor das molstias, o mosquito Aedes aegypti.

“Eu sou mdico, ento o que acontece no caso dessas doenas que eu preciso receitar um tratamento que valha no para uma pessoa s, mas para uma cidade inteira”, disses Callahan Folha em visita recente ao Brasil.

“Em vrios lugares da sia, possvel que as estratgias de larga escala, como o uso de inseticidas, tenham piorado o problema em vez de melhor-lo. No fcil acertar essa coreografia –s vezes os efeitos das diferentes estratgias acabam se anulando.”

Callahan o executivo-chefe da Fundao Zika, cujo objetivo arquitetar parcerias internacionais que sejam eficazes no combate doena. Ele esteve em Piracicaba (interior paulista) para conhecer a fbrica de mosquitos geneticamente modificados da empresa de biotecnologia Oxitec.

Os Aedes transgnicos machos desenvolvidos pela companhia, que esto passando por testes em municpios como Juiz de Fora (MG) e Piracicaba, acasalam com as fmeas selvagens da espcie e do origem a filhotes inviveis, que no chegam fase adulta. Com isso, a populao de mosquitos tende a cair bastante, o que, espera-se, tambm reduziria a transmisso das doenas carregadas pelo A. aegypti.

“Os resultados que eles nos mostraram aqui parecem bastante promissores, e j tivemos algumas ideias a respeito de como otimizar o processo e torn-lo ‘escalvel’, ou seja, para que a produo possa ser descentralizada e ajustada de acordo com o tamanho de cada cidade”, disse.

PROVA DOS NOVE

Por ora, no h evidncias definitivas de que a diminuio da populao dos mosquitos leva a menos transmisso de doenas, embora alguns resultados preliminares em Piracicaba sugiram isso.

Para Callahan, de qualquer maneira, a conta faz sentido porque, para comeo de conversa, uma proporo relativamente pequena dos insetos carrega o vrus, mesmo num contexto de epidemia –a maioria deles est “limpa”, o que sugere que uma massa crtica grande de A. aegypti necessria para manter os vrus circulando.

“Outro ponto importante que, diferentemente do que acontece no caso dos inseticidas, os mosquitos transgnicos afetam apenas uma espcie. Se voc se prope a matar todos os Aedes com inseticidas, inevitavelmente vai afetar as liblulas e outros insetos predadores, ou mesmo as lagartixas que comeriam as fmeas de mosquitos que esto cheias de sangue e prestes a botar seus ovos”, afirmou.

“Isso”, prossegue o infectologista, “faz com que, paradoxalmente, a contagem de mosquitos numa casa at aumente depois que passa o efeito inicial do inseticida, porque ns eliminamos as espcies que naturalmente controlam aquela populao.”

Finalmente, a vantagem de pensar em solues que afetem o inseto vetor de maneira especfica que elas tm o potencial de barrar todas as doenas que ele transmite hoje –s no Brasil, a lista inclui os quatro tipos da dengue, zika, febre amarela e chikungunya– e as que ele ainda pode vir a transmitir.

“Com a globalizao, a presena do Aedes nas Amricas significa que ele est pronto para transmitir uma grande variedade de vrus africanos e asiticos que ainda no chegaram at aqui”, disse.

Para Callahan, o uso de vacinas contra a dengue e a zika deve ser visto com cuidado por causa da relativa proximidade gentica entre as doenas, a qual, por sua vez, leva a uma imunidade cruzada parcial entre elas. Na prtica, isso significa que, no organismo de uma pessoa que j teve um dos vrus, o sistema de defesa fica “pr-programado” para lidar com o outro –mas de uma maneira pouco eficaz, que pode at potencializar os efeitos nocivos do novo invasor.

Algo muito similar poderia acontecer no caso de uma vacina. “Isso arriscado porque vacinamos pessoas sadias, que no podem ser ‘desvacinadas’ mais tarde”, argumenta o infectologista.

No caso dos remdios, o grande problema que os vrus da dengue e seus parentes costumam se multiplicar de tal maneira no organismo dos hospedeiros que a grande maioria das partculas virais no tem grande capacidade de infectar as clulas, diz ele –elas esto ali apenas para enganar o sistema imune, enquanto uma pequena minoria dos vrus mantm a infeco acontecendo.

Isso significa que um medicamento projetado para exterminar as formas mais comuns do vrus talvez no afete as variantes do patgeno que de fato esto causando a doena –e podem at aumentar a frequncia delas na populao viral, com efeitos mais severos sobre os doentes no futuro. “Com isso, a tendncia voc ficar correndo atrs do prprio rabo”, resume Callahan.

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