Mineração na Amazônia venezuelana faz crescer desmatamento e malária – 15/01/2018 – Ambiente

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Com as mos sujas de barro, um mineiro joga rochas ricas em minerais em uma mquina que tritura pedras. Elas sero processadas com mercrio em um processo rudimentar que se multiplica pela Amaznia venezuelana e que, em 2017, rendeu 8,5 toneladas de ouro ao banco central do pas.

A minerao a aposta do presidente Nicols Maduro depois que a queda dos preos do petrleo, principal produto de exportao do pas, e a crise fizeram disparar a inflao e o desemprego.

Ouro, diamante e coltan (composto usado na fabricao de eletrnicos) so os principais produtos extrados do Arco Mineiro do Orinoco, megaprojeto do governo da Venezuela que ocupa 112 mil km2 da floresta amaznica –ou 12% do territrio do pas.

O projeto foi oficialmente inaugurado em agosto de 2016, quando Maduro disse que 150 companhias de 35 pases haviam demonstrado interesse em investir no Arco Mineiro. Um ano e meio depois, no entanto, projetos concretos de minerao seguem ausentes na Venezuela.

” uma jogada desesperada do governo Maduro para levantar dinheiro”, diz David Smilde, professor de sociologia na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, nos EUA, e membro snior na ONG Oficina em Washington para Assuntos Latino-americanos. “Os problemas atuais da Venezuela tm menos a ver com a queda dos preos do petrleo e mais relao com polticas econmicas insustentveis. Lembre-se de que, durante o ciclo de protestos de 2014, o barril de petrleo custava quase US$ 100. O modelo j era insustentvel e a queda no preo do petrleo s acentuou seu declnio.”

Ainda em agosto de 2016, o presidente tambm anunciou ter assinado um contrato com a Barrick Gold, maior mineradora do mundo. A empresa, no entanto, afirmou reportagem que “participou da reviso de projetos mineiros no pas”, mas negou buscar “qualquer projeto ou investimento na Venezuela”.

A falta de parceiros comerciais no inibe a existncia do Arco Mineiro. De acordo com o governo, cerca de 250 mil pessoas dependem direta ou indiretamente do projeto. E migrantes chegam todos os dias de outras partes do pas.

“O salrio mnimo simplesmente no o suficiente para mim. Sou uma me solteira de trs filhos. Eu me demiti e vim para c. um pouco difcil, mas agora consigo sustentar meus filhos”, conta a mineira Minorca Maurera, 23, que trabalhava em uma padaria antes de se mudar para El Callao, a 640 km ao sudeste de Caracas, capital do pas.

Bram Ebus/InfoAmazonia
Mineiros trabalham em uma das minas nas redondezas de El Callao, na Venezuela
Mineiros trabalham em uma das minas nas redondezas de El Callao, na Venezuela

Nesta regio, que fica no estado de Bolvar, so 30 mil mineiros independentes que processam artesanalmente o ouro extrado. Com as mos nuas e sem mscaras no rosto, eles fazem a limpeza das rochas com mercrio, metal lquido que misturado gua e evaporado nas etapas finais de separao do ouro.

Alm de poluir o ambiente, o mercrio causa problemas neurolgicos, nos rins, pulmes e pele de quem se expe a ele, explica Marianella Herrera, diretora do Observatrio Venezuelano da Sade. “Alm disso, pesquisadores tm associado a exposio a metais pesados, como o mercrio, ao autismo”, diz.

O uso do metal na minerao proibido desde abril de 2016 no pas, o que no impede a mineradora estatal Minerven de comprar quase toda a produo dos mineiros artesanais de Bolvar.

“No posso afirmar que a Minerven compre o ouro de minas ilegais porque no papel no assim”, diz um funcionrio da empresa que pediu para no ser identificado. “Estamos autorizados a comprar de 17 ou 18 associaes de produtores artesanais de ouro, mas sabemos que eles compram de mineiros ilegais. ”

MALRIA

O crescimento da minerao provocado pelo projeto do Arco Mineiro tambm levou a uma epidemia de malria na Venezuela. Em 2016 foram 240 mil contaminaes no pas, um nmero 76% maior que o do ano anterior, segundo dados da Organizao Mundial da Sade (OMS). Trs em cada quatro casos foram registrados no estado de Bolvar, que faz fronteira com o Brasil.

O dado alarmante para o pas, o primeiro do mundo a ser certificado pela OMS por ter erradicado a malria em locais de grande concentrao de pessoas, em 1961.

EPIDEMIA DE MALRIA – Casos confirmados da doena

O desmatamento de vastas reas para a extrao de minrios um dos motivos para o aumento de casos. Segundo especialistas, a falta de rvores que faam sombra faz com que o sol aquea as guas de lagos e poas mais rapidamente, acelerando o desenvolvimento das larvas.

Mas a migrao de trabalhadores para a regio e a falta de medicamentos contra a malria agravam a situao.

“A fronteira entre o mosquito e o homem no existe mais”, diz um mdico que pediu para no ser identificado –colegas foram demitidos por falar com a imprensa.

reas de minerao remotas nos estados de Bolvar e Amazonas tambm enfrentam problemas semelhantes. “Mas a morte se apresenta porque as pessoas vivem longe demais”, diz o mdico. “Primeiro, elas precisam cruzar o rio, esperar por um barco, ento por uma mula e, ento, um Jeep Toyota precisa transport-las at ns. Isso pode levar at trs ou quatro dias e a sade de algum nesta condio pode ficar bastante complicada”.

“H um aumento extraordinrio de mineiros migrantes de diferentes estados em direo ao Amazonas e Bolvar, alm de pessoas ‘colaterais’, como prostitutas e mercadores”, diz Oscar Noya, diretor do Centro de Estudos sobre Malria e cientista do Instituto de Medicina Tropical.

A doena transmitida a seres humanos pela picada de um mosquito, que pode ter sido contaminado por outra pessoa. Por isso, a exploso de casos na Venezuela deixou os pases vizinhos em alerta.

Em 2017, a Colmbia recebeu 965 pessoas que cruzaram suas fronteiras com malria e 91% eram da Venezuela.

VIOLNCIA

A minerao atrai gangues locais, que buscam aumentar o seu poder e dinheiro pela coero de mineiros. “Se voc se comportar, nada vai acontecer”, diz um mineiro de El Callao enquanto explica a “vacina” –a extorso mensal de 4g ou 5g paga a uma das gangues.

Com expresso calma, ele acrescenta: “Seno, voc ir l para cima [no topo dos morros] e eles vo ligar a motosserra”.

Entre janeiro e outubro de 2017, uma anlise de reportagens da imprensa feita pelo Observatrio Venezuelano de Violncia no estado de Bolvar mostra que ao menos 1.415 pessoas foram assassinadas na regio –muitas delas em zonas mineiras.

Para manter sua base de apoio, o governo venezuelano tem dado cada vez mais poder s Foras Armadas, que comandam e tm forte presena no Arco Mineiro. Segundo Cliver Alcal Cordones, major-general do Exrcito aposentado em 2013, as gangues armadas pagam aos militares para manterem as operaes de controle sobre a minerao ilegal.

“Quando destrumos algumas atividades de minerao ilegal, os mineiros reclamaram porque j tinham pago aos militares antes”, conta o oficial, um apoiador do ex-presidente Hugo Chvez que j esteve no controle das regies mineiras. Ele menciona que muitos avies exportam ilegalmente a maior parte do ouro da Venezuela para as ilhas do Caribe. Os militares esto envolvidos.

FARC

Do outro lado do Arco Mineiro, na parte mais ocidental de Bolvar e no estado vizinho Amazonas, os minrios so cobiados por dissidentes das Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc) que no aceitam o acordo de paz da guerrilha com o governo colombiano. Eles comearam a atravessar a fronteira em 2002 com membros do Exrcito Nacional de Liberao (ELN), que foi o segundo maior grupo guerrilheiro da Colmbia.

Hoje so cerca de 4.500 guerrilheiros s no Amazonas, de acordo com Librio Guarulla, que governou o estado entre 2001 e 2017. “Praticamente, a guerrilha quem exerce o controle aqui. A guerrilha com a ajuda das Foras Armadas da Venezuela. Elas recebem parte dos ganhos”.

Procurado pela reportagem, o governo venezuelano no se manifestou.



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