Como o vício em smartphones tem acabado com os bons modos – 29/01/2018 – Equilíbrio e Saúde

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Proponho uma brincadeira: da prxima vez que voc estiver com amigos ou em um encontro, mea quanto tempo passa antes que algum pegue o celular para ver se recebeu alguma mensagem.

Quanto tempo passa, em mdia, sem que algum olhe o telefone?

“Se isso acontece, o jantar acaba”, disse Judith Martin, jornalista do “Washington Post” cuja coluna sobre bons modos, Miss Manners, publicada por 200 jornais a cada semana.

“No creio que algum ouse fazer isso comigo”, disse Martin.

A maioria de ns no conta com a autoridade conferida por 40 anos no comando de uma coluna de boas maneiras, mas, no importa quem voc seja, pode ser impossvel evitar que um interlocutor fique de olhos colados em seu brinquedinho mvel. (Uma pergunta ainda mais difcil: seus amigos ou seu par romntico gostam mais do celular ou de voc?)

O problema de olhar de modo recorrente os nossos aparelhos eletrnicos tem um lado social e um lado fisiolgico.

A cabea humana mdia pesa entre 4,5 e 5,5 quilos, e quando curvamos nossos pescoos para escrever uma mensagem de texto ou olhar o Facebook, a atrao gravitacional sobre a cabea e a tenso no pescoo crescem at o equivalente a 27 quilos de presso. Essa postura comum, compartilhada por pedintes e presidentes, resulta em perda gradual da curva espinhal.

O “pescoo de SMS” est se tornando um problema mdico que aflige inmeras pessoas, e a maneira pela qual mantemos nossas cabeas voltadas para baixo tambm acarreta outros riscos de sade, de acordo com um estudo publicado no ano passado pela revista acadmica “The Spine Journal”.

H provas de que a postura afeta o humor, o comportamento e a memria, e ficar encurvado frequentemente tambm pode causar depresso, de acordo com o Centro Nacional de Informaes sobre Biotecnologia norte-americano. A maneira pela qual ficamos em p afeta tudo, da quantidade de energia de que dispomos ao desenvolvimento dos ossos e msculos, e at mesmo a quantidade de oxignio que nossos pulmes so capazes de absorver. A linguagem corporal, percepes de fraqueza vs. fora: tudo isso verdade.

E o remdio pode ser ridiculamente simples: basta sentar direito.

Psiclogos sociais como Amy Cuddy afirmam que ficar em p com postura confiante, mantendo a cabea erguida e os ombros retos, pode aumentar o fluxo de testosterona e cortisol no crebro, o que serve para impedir muitos dos problemas acima. Por que no estamos respondendo a esses sinais? Pode ser uma questo de simples negao.

Ser que a cegueira causada por desateno mesmo um problema, portanto?

Cerca de 75% dos norte-americanos acreditam que seu uso de smartphones no afeta sua capacidade de prestar ateno, em situaes de grupo, de acordo com o Pew Research Center, e cerca de um tero dos norte-americanos acredita que usar celulares em situaes sociais contribui para a conversao.

Mas ser que contribui de fato?

Especialistas em etiqueta e cientistas sociais respondem em completo acordo: no.

O comportamento “sempre conectado” para o qual os smartphones contribuem nos leva a nos afastarmos de nossa realidade, dizem especialistas. E alm das consequncias de sade, quando ficamos de cabea baixa nossas capacidades de comunicao e nossos bons modos tambm encolhem.

“Acreditamos que o comportamento antissocial de alguma maneira no nos afetar individualmente”, disse Niobe Way, professora de psicologia aplicada na Universidade de Nova York.

Way estuda o papel da tecnologia em dar forma ao desenvolvimento adolescente. As interaes conduzidas de cabea baixa nos afastam do presente, no importa em que grupo estejamos, ela diz. E no problema s para os jovens. um comportamento incorporado, aprendido, copiado e repetido, em boa parte por imitao aos adultos. Quando crianas veem seus pais de cabea baixa, emulam essa ao. O resultado uma perda de indicadores no verbais, e isso pode atrofiar o desenvolvimento.

“O que vem acontecendo, mais e mais, que no conversamos com os nossos filhos”, disse Way. “Ns os colocamos diante da tecnologia quando so pequenos, e, quando ficamos mais velhos, nos deixamos absorver por nossa prpria tecnologia”.

Todos j vimos essas coisas acontecendo. Recorde um dos mtodos que os pais usam para acalmar crianas gritalhonas: “Pega essa iPhone a, moleque, e aproveita”, como descreve Way, em lugar de perguntarem o que est acontecendo, de proporem “vamos conversar: qual o problema, meu filho?”

Ela acrescenta que “ns acreditamos que nossos filhos um dia sabero o que uma interao boa e uma interao m, que eles tero empatia. Mas se vou ao quarto do meu filho e vejo sete adolescente l todos afundados em seus celulares, todos silenciosos, o que est acontecendo desengajamento de toda espcie. O problema no o Facebook, mas a maneira pela qual eles usam o Facebook”.

Todas as idades so afetadas.

Um estudo de 2010 constatou que crianas e adolescentes dos oito aos 18 anos passam mais de 7,5 horas ao dia consumindo mdia. De l para c, nossos vcios digitais continuaram a definir nossas vidas, em alguma medida. Em 2015, o Pew Research Center reportou que 24% dos adolescentes “esto quase constantemente” online.

E as coisas no so melhores entre os adultos. A maioria dos adultos passa 10 horas por dia ou mais consumindo mdia eletrnica, de acordo com um Total Audience Report da Nielsen no ano passado.

O Conselho Nacional de Segurana norte-americano reporta que o uso de celulares torna os motoristas mais propensos a acidentes do que a embriaguez ao volante, causando 1,6 milhes de colises ao ano, a maioria envolvendo jovens dos 18 aos 20 anos. Um quarto dos acidentes nos Estados Unidos esto relacionados a mensagens de texto.

“Os aparelhos mveis so a me da cegueira por desateno”, disse Henry Alford, autor de “Would It Kill You to Stop Doing That: A Modern Guide to Manners”. ” esse o nome que se d ao estado de esquecimento manaco que toma conta de algum que se deixa absorver por uma atividade que exclua tudo mais”.

A cientista social Sherry Turkle analisou 30 anos de interaes familiares em seu livro “Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other”. Ela constatou que as crianas agora competem pela ateno dos pas com os aparelhos eletrnicos destes, o que resulta em uma gerao que teme a espontaneidade de um telefonema ou interao face a face. Olhar o interlocutor nos olhos hoje se tornou opcional, de acordo com Turkle, e a sobrecarga sensorial que enfrentamos pode muitas vezes significar que nossos sentimentos esto o tempo todo anestesiados.

Pesquisadores da Universidade do Michigan afirmam que os nveis de empatia despencam e que o narcisismo escapa ao controle, com efeitos sobre o desenvolvimento emocional, a sade e a confiana, sempre que abaixamos nossas cabeas como se fssemos avestruzes humanos.

Sean Parker, antigo presidente do Facebook, recentemente declarou que a plataforma foi criada para viciar, e para “consumir o mximo possvel de seu tempo e de sua ateno consciente”, o que ele caracterizou como equivalente a uma injeo de autoestima, causada pela dopamina liberada quando um post recebe likes.

“Isso literalmente muda nossa relao com a sociedade, e uns com os outros”, disse Parker. “E provavelmente interfere com nossa produtividade, de maneiras estranhas. S Deus sabe o que isso est fazendo com os crebros de nossas crianas”.

Mesmo assim, provvel que voc esteja lendo este artigo em um aparelho mvel. E isso no problema! (Desde que voc no esteja ao volante.) No estamos aqui para lhe dizer que jogue fora o seu iPhone e abandone a mdia digital. Mas como no caso de muitos vcios, admitir o problema um primeiro passo para o tratamento. E, por sorte, a soluo no antitecnolgica; Turkle diz que ela na verdade pr-conversao.

Faa um esforo para interagir com as pessoas.

As desintoxicaes digitais nunca foram to populares, mas no so panaceia, e a realidade que no existe uma soluo simples e clara.

A resposta mais simples para todos ns aquela que a Bblia prope: trate os outros como gostaria de ser tratado – e de preferncia sem ter o smartphone na mo o tempo todo. Da prxima vez que voc estiver na fila do caixa, ou parado no semforo, olhe em volta. Quantas pessoas esto l com voc?

“Os seres humanos reais, de carne e osso, tm precedncia”, ralhou Martin. “Ignorar as pessoas com quem voc esteja rude, quer as ignore por conta de amigos virtuais ou de amigos distantes; isso equivale a esnob-las”.

Parece um conselho to bvio que soa quase estpido. Mas o que a esperana da Dra. Turkle, de incentivar o dilogo sem denegrir os amigos digitais, revela que obviamente no estamos dialogando o suficiente, no sentido mais simples do termo.

Alford, que escrevia uma coluna mensal sobre boas maneiras para o “New York Times”, descreveu a questo como “esquecimento monomanaco” – estar absorto a tal ponto em uma atividade que o resto do mundo termina excludo.

“Tratar a pessoa que est diante de voc como menos importante que o seu celular em geral pode ser entendido como uma microagresso, como a garotada diz”, ele definiu.

Muitos sabiches do Vale do Silcio vo guerra se algum sugerir que os mritos da tecnologia no so uniformemente positivos.. Mas diante de uma mdia social que se tornou to bruta quanto o ptio de uma escola, essa reao agora parece irrelevante.

Velhos ou jovens, somos todos, literalmente, uma gerao de casos em teste. Etiqueta, bons modos, linguagem corporal, a maneira pela qual respondemos e interagimos e mesmo nossa aparncia – tudo est mudando. Estamos abrindo mo de toda uma vida, que acontece apenas 90 graus acima de nossos celulares. Comece a olhar para cima.

“Jamais seja a primeira pessoa em um grupo a pegar o celular”, recomendou Alford. “No seja o paciente zero”.

Traduo de PAULO MIGLIACCI



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