Cuidados com a saúde podem prevenir um terço das demências – 29/01/2018 – Equilíbrio e Saúde

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Ainda no h cura ou formas de reverter demncias como o alzheimer, porm, cada vez mais a cincia aponta que possvel prevenir ao menos um tero delas.

A reduo dos riscos dessas doenas que geram deficit cognitivo grave, perda da memria, da linguagem e de outras funes comea j na infncia, com a alfabetizao.

Uma mente estimulada pode no impedir o surgimento da doena, mas o fato de retardar os sintomas j considerado um timo sinal.

O controle da hipertenso, do diabetes e da depresso, e a adoo de hbitos saudveis, como no fumar e fazer exerccios fsicos, tambm so fatores de proteo.

Vrios estudos tm chegado a essa concluso e, no ano passado, a revista mdica “The Lancet” publicou um amplo relatrio com uma reviso sistemtica de toda a pesquisa sobre o tema.

So estudos de coorte em diferentes populaes. Neles, os participantes so avaliados em relao a diferentes fatores de risco e acompanhados por vrios anos para detectar o aparecimento dos sintomas de demncia. Depois disso, so investigados quais desses fatores esto associados a um risco maior da doena.

Segundo o relatrio, cerca de 47 milhes de pessoas tm demncias no mundo e so gastos US$ 818 bilhes anualmente com essas doenas.

O problema s tende a aumentar, principalmente nos pases mais pobres. Estima-se que em 2030 haver 75 milhes de pessoas com demncia no mundo, ao custo de mais de US$ 2 trilhes.

“H um grande foco no desenvolvimento de medicamentos para evitar demncias como o alzheimer mas no podemos perder de vista os verdadeiros avanos que j alcanamos nas abordagens preventivas”, disse Folha Lon Schneider, professor de psiquiatria e cincias comportamentais da Universidade da Carolina do Sul e um dos autores do relatrio.

Autora do best-seller “100 Dicas Simples para Prevenir o Alzheimer – E a Perda de Memria”, Jean Carper afirma que o alzheimer e outras demncias so influenciadas pelos genes, mas que o estilo de vida e fatores ambientais podem minimizar os efeitos.

“Pessoas com genes relacionados ao alzheimer tm mais predisposio, mas no esto necessariamente predestinadas a desenvolver a doena. importante realizar atividades e ter hbitos que mantenham o crebro o mais ativo e saudvel possvel”, diz ela, que carrega um gene que aumenta a chance de desenvolver a doena.

FATORES DE RISCO

A comisso de 24 especialistas que elaborou o documento publicado no “The Lancet” identificou nove fatores de risco, em vrias fases da vida, que aumentam a probabilidade de ter a doena.

Por exemplo: ao investir em educao na juventude e cuidar da perda de audio, da hipertenso e da obesidade na vida adulta, a incidncia de demncia poderia ser reduzida pelo menos 20%.

Na velhice, ao manter o diabetes sob controle, aumentar a atividade fsica e ter contato social o risco da doena poderia cair em mais 15%.

Para Schneider, “mitigar os fatores de risco nos fornece um caminho poderoso para reduzir a demncia em nvel global”, diz ele. Na opinio da geriatra Maisa Kairalla, presidente da regional paulista da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, essas informaes deveriam moldar novas polticas pblicas voltadas preveno.

“O brasileiro ainda no faz a associao de que o cigarro, a bebida, os quilos a mais, a falta de exerccio e de controle de doenas, como a hipertenso ou diabetes, tero impacto no desenvolvimento de doenas no futuro, incluindo a demncia”, afirma.

Passveis de preveno, esses fatores de risco esto especialmente relacionados demncia vascular, o segundo tipo mais prevalente no Brasil, atrs apenas do alzheimer, a mais frequente.

ESTUDO

Um estudo feito pela USP a partir da autpsia de 1.092 crebros de pacientes com mais de 50 anos mortos na capital descobriu que 480 deles tinham sintomas e diagnstico de demncia. Desses, 35% eram do tipo vascular.

Segundo Claudia Suemoto, professora de geriatria da USP e uma das autoras do estudo, publicado no peridico “Plos Medicine”, o diagnstico feito por meio de leses vasculares no crebro. “Uma explicao provvel que fatores de risco cardiovascular no controlados, como hipertenso, diabetes, colesterol alto, tabagismo e inatividade fsica, estejam causando essas leses cerebrovasculares”, explica.

Para ela, alm de ser informada sobre esses fatores que aumentam o risco de demncias, a populao precisa ter acesso aos servios de sade para avaliao, tratamento e controle deles.

O relatrio publicado no “The Lancet” tambm examinou o efeito de intervenes no farmacolgicas para pessoas com demncia e concluiu que elas tm um importante papel no tratamento, especialmente no controle da agitao e da agresso.

“Drogas antipsicticas so normalmente usadas para esse fim, mas h preocupao considervel com elas porque aumentam o risco de morte e de eventos cardiovasculares adversos “, afirma Schneider.

As evidncias indicaram que intervenes psicolgicas, sociais e ambientais, como a promoo do contato social, tiveram um resultado melhor que os remdios antipsicticos para tratar os sintomas de agitao e agresso associados demncia.

SINAL DE ALERTA

O sinal de alerta da famlia da aposentada Clarice, 85, acendeu quando ela saiu para fazer compras, deixou o carro estacionado em uma via pblica, voltou para casa a p e, dias depois, achou que tivesse sido roubada ao notar a falta do veculo na garagem.

Antes, a apatia e os esquecimentos de compromissos e dos horrios dos remdios j chamavam a ateno das filhas, mas os sintomas eram associados depresso da me aps a morte do pai.

O diagnstico da doena de Alzheimer foi dado pela geriatra aps testes clnicos. “Foi um golpe duro para ns. Minha me sempre teve uma memria invejvel, dirigia, tomava conta de tudo e de todos”, diz a filha Patrcia, 37.

A doena no tem cura. Hoje, sete anos aps o diagnstico, Clarice segue medicada com remdios que ajudam a preservar o que restou da funo cerebral, alm dos sintomas secundrios como insnia e depresso.

Ela ainda mantm uma certa independncia e mora sozinha por opo. As duas filhas vivem perto e se revezam nos cuidados e na superviso.
“A mdica considera um caso de sucesso, mas o esquecimento est piorando. Ela pergunta 15 vezes a mesma coisa. Dias desses, foi missa sozinha e se perdeu, s voltou para casa duas horas e meia depois”, conta a filha.

Em estgios avanados, os problemas de memria podem vir seguidos de dificuldade de andar e de se comunicar, alm de incontinncia.
Patrcia afirma que a doena a assombra. Alm da me, uma av, uma tia e um tio j morreram de alzheimer.

“A geriatra diz que no h o que fazer para prevenir caso eu carregue o gene, mas uma nutrloga me disse que possvel, sim, adotando uma alimentao funcional.” No h evidncia de que isso tenha efeitos protetores.

Ano passado, o resultado de uma ressonncia magntica deixou a aposentada Linete de Lima Machado, 83, preocupada: foram detectadas placas de protena no seu crebro que podem levar ao desenvolvimento do alzheimer.

Como tratamento da doena que causa perda progressiva da memria, confuso e problemas de comportamento, ela usa um medicamento (bromidrato de galantamina).

H mais de uma dcada Linete acompanhada pela equipe de geriatria da Unifesp (Universidade Federal de So Paulo). Ali, recebeu tratamento da depresso, tambm tido como medida protetora da demncia. “Fao psicoterapia e exerccios, que me ajudam muito.”

H dois meses, porm, ela diz que a vida “descontrolou” aps o marido Jos, 85, sofrer uma queda dentro de um nibus no centro de So Paulo. “Eu que ajudo ele em tudo, at a tomar banho.” Por conta disso, ela diz que est “descuidando” da sua sade. Deixou de tomar remdios e parou com atividades fsicas. “Sei que est errado.”

Editoria de arte/Folhapress



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