Retina humana é muito melhor do que uma câmera – 30/01/2018 – Suzana Herculano-Houzel

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Ela é sensível a níveis de luz que variam 100 trilhões de vezes em intensidade, da escuridão quase completa ao clarão da areia de uma praia ensolarada; vem com um sistema de autofoco que trabalha impecavelmente por cerca de quatro décadas e ainda sabe fazer ajustes locais no contraste, de modo que nenhuma parte da imagem ficará queimada quando outra ainda estiver escura.


Mais do que isso: entrega o resultado já pré-processado, limpo e filtrado, com cores corrigidas, e tem resolução ultraelevada na parte mais importante da imagem. Conta ainda com uma capa que fecha automaticamente ao menor risco de arranhão.


Que câmera é essa? Sua retina, no fundo de cada olho. Como se não bastasse, ela ainda vem com um relógio interno embutido, que ajusta a sensibilidade do detector de acordo com a hora do dia mas também a luminosidade do ambiente.


Assim como comparar o cérebro a um computador não faz jus à biologia, que com o tempo torna o cérebro cada vez mais ajustado ao que de fato faz em cada usuário, ainda está para ser criada uma câmera que seja páreo para o par que trazemos na cabeça (que, por ser um par, ainda permite visão estereoscópica, em 3D).


Também, pudera: tecnicamente, a retina, formada por células organizadas em dez camadas, é parte do cérebro. Extrovertida para as órbitas durante o desenvolvimento, é verdade –mas parte do cérebro ainda assim, formada a partir do mesmo primórdio que dá origem ao hipotálamo, estrutura que controla a fisiologia do corpo, inclusive a produção de hormônios.


Como parte do cérebro que é, a retina se conecta diretamente a ele e também tem uma circuitaria digna de córtex cerebral. Muito mais do que os meros detectores de uma câmera, a retina possui um circuito interno rico e intricado que leva cerca de 40 milissegundos pré-processando a informação que chega na forma de luz.


Só então o resultado é informado tanto ao córtex visual, que permite a formação de uma imagem acessível à consciência, quanto aos colículos, em outra parte do encéfalo, que reposicionam os olhos ao menor sinal de movimento, sem que precise se pensar a respeito.


Assim como o estado normal do cérebro é alternadamente acordado ou adormecido, dependendo da combinação de moduladores que o banham, também a retina recebe do seu irmão, o hipotálamo, fibras com histamina, as mesmas que mantêm o cérebro acordado. Só falta agora alguém descobrir que a retina não só se cobre com as pálpebras à noite como ainda dorme…



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