Brasil terá arrojo do Chile em rótulos de alimentos insalubres?  – 13/02/2018 – Cláudia Collucci

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Como assim? Sucrilhos não são saudáveis? A surpresa de um amigo ao saber da bomba de açúcar presente no seu café da manhã dá a medida do quanto ainda somos enganados pelas embalagens e propagandas bonitas que promovem os alimentos cheios de açúcar, sal e gordura.

Falávamos sobre a guerra declarada pelo governo chileno aos alimentos insalubres que envolve várias restrições de marketing e mudanças obrigatórias nas embalagens dos alimentos industrializados.

Multinacionais como a Kellogg’s tiveram que remover os personagens que enfeitam as caixas dos cereais açucarados e proibiu a venda de doces que usam brindes para atrair as crianças. Adiós, Kinder Ovo!

Também estão proibidas a venda de junk food, como sorvetes, chocolates e batatas chips, e publicidade desse tipo de produto em programas de TV e sites dirigidos a audiências jovens.

Segundo a reportagem do “New York Times”, as medidas já são vistas como a mais ambiciosa tentativa no mundo de redesenhar a cultura alimentar de um país, e podem se tornar um modelo de como reverter a epidemia mundial de obesidade, que, segundo pesquisadores, contribui para quatro milhões de mortes prematuras a cada ano.

Por aqui, a Anvisa debate há três anos mudanças de regras nos rótulos desses alimentos tidos como vilões da saúde. A proposta, que deve ser fechada neste ano, é que o modelo atual, considerado confuso e pouco informativo, seja substituído por um que permita que o comprador saiba, de verdade, o que está levando para casa.

O embate entre a indústria de alimentos e entidades médicas e de defesa do consumidor gira em torno, principalmente, de sobre que tipo de advertência na parte da frente da embalagem é a mais adequada. O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), inspirado no modelo do Chile, defende advertências em forma de triângulos negros. Neste ótimo minidocumentário você pode conhecer mais sobre a proposta.

Já os representantes da indústria, como a Abia e CNI, preferem o alerta de semáforo colorido, a exemplo do que é utilizado no Reino Unido e no Equador, que usam as cores verdes, amarelo e vermelho para alertar sobre a quantidade de ingredientes que trazem riscos à saúde. Consideram a proposta do Idec “alarmista”, que desperta “medo” nas pessoas.

O Idec se ampara em pesquisa para afirmar que o triângulo negro traz maior confiabilidade, à medida que informa de maneira clara o teor do produto. O instituto entregou à Anvisa uma petição com mais de 50 mil assinaturas em apoio a esse modelo, chancelado por mais de 30 instituições ligadas à saúde e alimentação saudável.

A indústria de alimentos também se ampara em pesquisa para rebater o Idec. Diz que 65% dos consumidores consideram o semáforo nutricional mais claro e didático. A Anvisa, por sua vez, informa que não há estudos científicos que comparem os modelos em análise, mas afirma que a mudança dos rótulos de alimentos é uma prioridade, embora ainda não haja prazo para bater o martelo.

As regras atuais para rotulagem têm pelo menos 15 anos e desde então o cenário epidemiológico mudou, com muita oferta e consumo de alimentos industrializados. Mais da metade da população está acima do peso. A prevalência da obesidade passou de 11,8% em 2016 para 18,9% em 2016. O excesso de peso também subiu de 42,6% para 53,8%.

O fato é que, com a decisão do Chile, todos os olhos se voltam para os próximos passos da Anvisa. Nos bastidores da saúde, comenta-se que a agência vem sofrendo pressões políticas, inclusive dentro do próprio governo de Michel Temer, em favor da proposta da indústria. Teremos o mesmo arrojo dos chilenos? A decisão priorizará a saúde pública e não no mercado? A ver.



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