Como saber quando a obra está pronta? – 13/02/2018 – Suzana Herculano-Houzel

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Não lembro quantos anos eu tinha, mas era menina. O ingresso do extinto Canecão com a prova do crime –“Para Suzana, Beijo do Tom” rabiscado em tinta azul — sobreviveu a quatro mudanças transcontinentais e tem a data, se eu lembrar onde o guardei desta vez. Mas essa parte é a menos importante. Importante mesmo é que, logo depois do show, minha mãe e tia me levaram no camarim, na cara de pau, e Tom Jobim não só nos recebeu como respondeu minha pergunta: Como você sabe quando uma música está pronta?

 

Eu andava encucada com a forma como músicas diferentes terminam. Algumas se dissolviam no final, como se o microfone tivesse ouvido o suficiente daquele grupo e se distanciasse para experimentar algum outro. Outras terminavam de supetão com um único acorde antes ou depois das últimas palavras; já as clássicas tendiam a terminar espalhafatosas, com uma sucessão de acordes. Essas eram as que mais me inquietavam: como um autor se decidia por ora três, ora cinco repetições do acorde final? Qual era o critério?

Décadas depois, com um tanto de neurociência e minhas próprias composições (escritas) na bagagem (esta é a 300ª só para a Folha), eu mesma posso aventurar uma resposta. Claro que existe uma forma que satisfaz exigências externas, como um tema pré-acordado, número de palavras, músicos ou duração. Mas o resto só depende das expectativas de quem compõe texto ou música.

Expectativas, aliás, que meras máquinas de computar não têm. Desde o começo, o cérebro experimenta com sua própria atividade, monta seus circuitos conforme os neurônios cantarolam em salvas ou a esmo, depois os refina de acordo com o que encontra ressonância do lado de fora.

Uma forma de expressão dessa atividade interna são os planos e modelos que criamos como expectativas do que podemos produzir, e que acabam servindo como métrica para julgar se fizemos direito. Outras estruturas no cérebro recebem esses planos de um lado, e de outro, o retorno dos sentidos sobre o que de fato aconteceu. Esses são tecnicamente os “preditores de erro”: neurônios que, por virtude dessa combinação de conexões, acusam quando o retorno não casa com o planejado.

Mas eu prefiro chamá-los de outra forma: são os neurônios que dizem “pronto” quando a orelha de fora ouve o que a orelha de dentro esperava ouvir. A resposta do Tom estava certíssima: “A gente sabe”.



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