‘Primo’ do Aedes carrega febre amarela, mas poder de transmissão é incerto – 15/02/2018 – Cotidiano

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Uma pesquisa do Instituto Evandro Chagas detectou a presença do vírus da febre amarela em um mosquito diferente daqueles que hoje são apontados como transmissores da doença –o Aedes  albopictus.

A descoberta ocorreu após análise de mosquitos capturados no primeiro semestre do último ano em áreas rurais próximas aos municípios de Itueta e Alvarenga, em Minas Gerais.

Segundo o diretor do instituto, Pedro Vasconcelos, é a primeira vez que o vírus é detectado nesse mosquito, encontrado na área rural de algumas regiões brasileiras.

O resultado indica que o Aedes  albopictus está suscetível ao vírus da febre amarela, o que não havia sido verificado até então. Ainda não é possível dizer, porém, se ele é capaz de transmitir a doença.

Para isso, o instituto, com apoio do Ministério da Saúde, planeja fazer novos estudos que possam verificar a capacidade vetorial desse mosquito, também conhecido como “Tigre Asiático”.

“O simples encontro do vírus da febre amarela nos tecidos desses mosquitos não indica que ele tem capacidade vetorial [ou seja, de transmitir o vírus]”, afirma Vasconcelos. “São necessários novos estudos”.

A pesquisa é necessária uma vez que, em outros países, há outros mosquitos que também já foram encontrados com o vírus da febre amarela, mas que não o transmitem. É a primeira vez, no entanto, que isso ocorre com o Aedes albopictus.

“Temos outros mosquitos infectados com o vírus de febre amarela na mata. São mosquitos que carregam o vírus, mas que não tem potencial de transmitir”, completa. A previsão é que os resultados saiam em até 45 dias.

Além de Minas Gerais, a pedido do ministério, pesquisadores também devem reforçar a captura de mosquitos no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde há casos da doença, para verificar se há presença do vírus em outros Aedes albopictus e, por meio de testes experimentais, descobrir se ele pode ou não transmitir a febre amarela. 

“Também precisamos verificar se encontramos o mosquito recém-infectado ou se eles já estavam infectados há muito tempo”, explica. “Se estava infectado há muito tempo, significa que a capacidade vetorial dele é muito baixa”.

Para o virologista Maurício Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, o achado é um dado epidemiológico “muito importante”. “Pode significar uma primeira etapa de urbanização da doença. Embora o albopictus não seja um mosquito de grandes metrópoles, com o aegypti, ele tem capacidade sim de transmissão. As autoridades não podem confiar no ‘eu acho que não vai acontecer'”, afirma.

Ele explica que o albopictus tem uma capacidade vetorial muito semelhante ao do aegypti e que, na Asia e no Caribe, já esteve envolvido em epidemias de dengue e de chikungunya. “Por aqui, o papel dele em sustentar epidemias não é conhecido.”

Segundo Nogueira, pode ser que agora haja respostas, por exemplo, para a indagação sobre o motivo do aumento de casos de febre amarela. “Será que se adaptou a um novo vetor?”

TRANSMISSÃO

Atualmente, a transmissão de febre amarela no Brasil ocorre pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes, que ficam em áreas rurais e de mata –é o chamado “ciclo silvestre” de transmissão.

Já o responsável por uma possível transmissão em área urbana seria o Aedes  aegypti, que também pode transmitir dengue, zika e chikungunya. O Brasil, no entanto, não registra transmissão urbana de febre amarela desde 1942 — e pesquisadores apontam que o índice de infestação do aegypti é baixo atualmente para que essa retomada ocorra.

De acordo com Vasconcelos, caso a possibilidade de transmissão pelo Aedes albopictus seja confirmada, isso poderia indicar o risco de haver um ciclo intermediário de febre amarela.

Isso porque o mosquito circula em regiões também intermediárias, que ainda estariam em meio rural, mas um pouco mais próximas das cidades, em áreas periurbanas.

Questionado, o diretor diz ver como baixa a possibilidade de que o país já esteja vivendo este ciclo intermediário, com maior risco de transmissão da doença nessas áreas. 

Para ele, todos os dados apontam que o aumento de casos de febre amarela no país desde o fim de 2016 está relacionado à baixa imunização.

“O que ocorreu e ainda está ocorrendo no Brasil é que os casos de febre amarela ocorrem em áreas onde não estava recomendada a vacinação, ou que não eram vacinados. E não um possível ciclo intermediário”, diz ele, para quem os dados, embora ainda não apontem um novo transmissor da doença, reforçam a necessidade de vacinação.

Ainda segundo o pesquisador, apesar de existente em várias regiões, o Aedes albopictus tem predominância menor do que o Aedes aegypti.

“Sabemos que, onde tem predominância de Aedes  aegypti, o albopcitus não se instala. Há uma competição pelo nicho ecológico”, informa o diretor.

Ele lembra que, na Ásia e África, o Aedes albopictus também é tido como transmissor secundário de dengue e chikungunya –o primeiro seria o aegypti.



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