A invisibilidade da mulher mais velha | Longevidade: modo de usar

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Quando se tem um dia dedicado a determinado assunto, é quase certo que isso acontece porque ainda há um longo caminho de problemas a serem superados. O Dia Internacional da Mulher, “comemorado” em 8 de março, é uma dessas datas nas quais o tema desigualdade é a tônica. Aliás, a revista britânica “The Economist” acabou de publicar a sexta edição do levantamento que faz anualmente sobre as disparidades entre os sexos no ambiente profissional. O ranking, do qual o Brasil não participa, lista 29 países e mostra os melhores e piores para uma mulher trabalhar. Na dianteira estão Suécia, Noruega e Islândia. De acordo com o relatório “Global Gender Gap Report 2017”, divulgado no fim do ano passado pelo Fórum Econômico Mundial, mantido o ritmo atual serão necessários mais de 200 anos para superar as diferenças de gênero no local de trabalho. Este blog já tratou da fragilidade econômica feminina: elas ganham menos e costumam pensar na família em primeiro lugar. Além disso, boa parte se dedica aos filhos e depois passa a tomar conta de familiares com problemas de saúde. Como a maioria sacrifica sua poupança ou nem sequer tem renda própria, se arrisca a viver mais e em piores condições que os homens.

Há muitas frentes de batalha, mas vou tratar especificamente de uma: a progressiva invisibilidade da mulher mais velha. Numa sociedade que endeusa a juventude, o envelhecimento ainda é mais duro para o sexo feminino. O mercado parece não enxergar que há vida (afetiva, sexual, social, profissional e financeira) na maturidade e velhice – gente com poder de compra, mais experiente e exigente. Há artigos e fórmulas de todo tipo que ensinam a como ficar fabulosa depois dos 50, ou exaltam a figura da “vovó gata”. Isso é o oposto de lidar bem com o envelhecimento. O amadurecimento ensina, entre outras coisas, a não se tornar escravo da opinião alheia. Isso é liberador e, para o bem de todas e sanidade geral do planeta, mulheres mais velhas vêm se tornando mais proeminentes. O número vai crescendo e as mudanças sociais começam assim: quando se aponta, quando se perde a vergonha de meter o dedo na ferida.

A mudança é lenta, mas está em andamento. Em setembro do ano passado, a revista “Allure”, espécie de bíblia de estilo e beleza, estampou na capa a atriz Helen Mirren, de 72 anos, e a chamou de “a heroína de que precisamos”. A publicação decidiu não usar mais a expressão “produtos antienvelhecimento”, como se o objetivo da bilionária indústria de cosméticos fosse combater um mal. Francis McDormand, de 60 anos e candidatíssima ao Oscar de melhor atriz por seu trabalho em “Três anúncios para um crime”, costuma dizer que seu rosto é um mapa e uma cirurgia plástica apagaria sua história. Não por acaso usei dois ícones do show business: suas vozes ressoam e servem de exemplo.

A invisibilidade pode ser especialmente dolorosa para quem sempre investiu muito na aparência e transformou os atributos físicos em suas principais referências. Por outro lado, a sensação também pode ser de alívio, pois a mulher passa a sentir livre para fazer o que quiser sem a necessidade de aprovação. Pintar ou não os cabelos, submeter-se ou não a procedimentos estéticos, o importante é que essas sejam decisões pessoais, e não pautadas por terceiros. Uma mulher pode nunca deixar de apreciar se vestir bem e se enfeitar, já que isso lhe dá prazer e é uma forma de autoexpressão, independentemente da sua certidão de nascimento.



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