Um ciclo para a epilepsia – 27/03/2018 – Suzana Herculano-Houzel

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Um dos problemas do mundo moderno são as falhas que deixam o tal do sistema “fora do ar”, justo na hora em que se precisa cancelar uma assinatura ou acessar a conta bancária.

Se isso já é inconveniente, imagine então conviver com epilepsia, distúrbio em que a atividade elétrica do cérebro entra em sobrecarga sem qualquer aviso prévio, gerando no mínimo momentos passados em branco, sem qualquer registro (as “crises de ausência”), e podendo chegar a crises convulsivas generalizadas com perda de consciência. 

Um novo estudo realizado em colaboração entre centros de pesquisa na Suíça e na Califórnia, nos EUA, traz um sopro de boas novas para a comunidade que estuda ou sofre de epilepsia —a primeira notícia realmente revolucionária em décadas, segundo um colega especialista na área. 

O estudo foi possível graças a uma tecnologia que há cerca de dez anos vem sendo implantada no cérebro de pacientes.

Trata-se de uma espécie de marca-passo que, ao detectar o início de uma crise convulsiva, produz pulsos de eletricidade que a neutralizam. Além de debelar a crise assim que ela começa, os eletrodos permitem detectar períodos de atividade elétrica alterada, mas que não chega ao nível crítico em que uma crise convulsiva é disparada. Ou seja: permitem detectar quase-crises, que de outra forma passariam despercebidas.

O achado transformador é que tais quase-crises, que ocasionalmente viram crises completas, não são aleatórias —mas também não são universalmente predizíveis: escondidas debaixo da atividade ainda normal no resto do cérebro, elas se repetem em ciclos de uma semana a cerca de um mês, cujo período exato entre uma quase-crise e outra é característico de cada pessoa, mas variável entre elas.

Ao analisar a atividade cerebral registrada em 37 pacientes com epilepsia ao longo de períodos de três meses a dez anos ininterruptos, a equipe liderada por Maxime Baud descobriu que as quase-crises são cíclicas em todos os pacientes, tanto homens quanto mulheres. Não se trata, portanto, de variação com o ciclo menstrual. 

O achado faz muito mais do que oferecer paz e segurança aos pacientes, que agora podem contar com algoritmos que predizem dias tranquilos e outros de risco.

O ciclo de quase-crises epilépticas sugere que cada um de nós possui um ritmo interno característico que governa nossa excitabilidade cerebral e, se não crises convulsivas, possivelmente outros estados como de humor ou predisposição.

Eis uma boa nova daquelas que eu mais gosto: responde algumas perguntas e gera várias outras novas.



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