Risco de câncer ameaça revolução prometida por ‘revisão ortográfica’ de genes com Crispr – 18/06/2018 – Marcelo Leite

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Essa lição já deveria ter sido aprendida há muito tempo: nada na biotecnologia é simples nem está livre de efeitos não pretendidos. Não poderia ser diferente com a Crispr-Cas9.

 

Essa técnica experimental, que usa enzimas para cortar e colar sequências específicas de DNA, vem despertando atenção e entusiasmo desde que se comprovou, em 2011, que era possível “consertar” genes com ela.

 

Talvez atenção e entusiasmo um pouco prematuros, indicam dois estudos publicados há uma semana no periódico científico Nature Medicine, aqui e aqui.

(São texto muito especializados em inglês. Um resumo mais acessível para interessados na questão, também em inglês, pode ser encontrado no boletim Stat.)

O grau da excitação desencadeada pela Crispr-Cas9 pode ser aquilatado pelo título do livro de uma pioneira, Jennifer Doudna: Uma ruptura na Criação – Edição de genes e o poder inimaginável de controlar a evolução (tradução da coluna para o nome em inglês).

 

Bem, a evolução está agora dando o troco.

 

A dificuldade surge com um mecanismo natural de defesa das células humanas contra danos causados por quebras na sequência de DNA. Quando elas acontecem, um dispositivo mediado pelo gene p53 entra em ação para consertar a ruptura ou disparar o processo de morte celular (apoptose).

 

O p53 está por trás da baixíssima eficiência das modificações terapêuticas que vêm sendo buscadas com Crispr-Cas9. As células em que tem sucesso a edição pretendida são justamente aquelas em que o p53 não funciona bem.

Só que o p53 é também um gene essencial para combater a multiplicação de células em tumores. Defeitos nele estão associados com proporções significativas de cânceres: segundo a Stat, quase metade dos tumores de ovário, dos colorretais (43%), dos pulmonares (38%) e quase um terço dos pancreáticos, estomacais e hepáticos.

 

Dito de outra maneira: a Crispr-Cas9, quando bem-sucedida, seleciona positivamente as células com potencial cancerígeno. Como várias daquelas em que o p53 funciona bem acabam morrendo, saem favorecidas, nessa forma de seleção artificial, as que carregam mutações deletérias ao gene protetor.

 

A divulgação dos estudos, não por acaso, fez despencarem as ações de empresas startups baseadas nessa tecnologia, como Editas Medicine, CRISPR Therapeutics e Intellia. Desistir da Crispr-Cas9, porém, seria um erro de precipitação tão grave quanto pintá-la como panaceia para todos os males do mundo.

 

Há aplicações da técnica que buscam trocar só uma letra na sequência de DNA, ou cortar fora uma sequência maior sem substituí-la por outra, “correta”. Nesses casos, as tropas celulares de defesa não são convocadas pelo p53.

 

“Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução”, já ensinou o geneticista ucraniano-americano Theodosius Dobzhansky (1900-1975).

 

Isso vale também para as invenções do engenho humano que tentam controlá-la. Não que seja impossível, mas tampouco parece fácil. Ou simples.



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