30% dos agrotóxicos liberados no Brasil foram banidos da Europa – 26/06/2018 – Cláudia Collucci

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O debate sobre agrotóxicos, que ganhou mais um capítulo nesta segunda (25) com a aprovação de um relatório que muda as regras para a regulação no país, não deveria ser uma bandeira só dos ambientalistas, mas de todos os que têm a mínima preocupação com a saúde e o meio ambiente.

Há anos o Brasil ocupa a liderança na lista de países que mais consomem agrotóxicos, segundo a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). E pra gente, sociedade, parece que está tudo bem, não é?

Não nos provoca indignação o fato de a legislação brasileira permitir um limite aceitável de agrotóxicos na água potável 5.000 vezes superior à europeia.

Ou uma quantidade de 200 a 400 vezes superior à permitido na Europa no cultivo de soja e feijão, respectivamente. No total, 30% dos 504 agrotóxicos de uso permitido Brasil são vetados na União Europeia.

Um dos agrotóxicos banidos na Europa e permitido aqui é o acefato, o quinto mais vendido no Brasil. Apesar de todas as indicações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de que ele é neurotóxico (pode ter efeitos sobre o sistema endócrino), continua sendo permitido.

O paraquat é outro exemplo. A Anvisa reconhece o perigo dele e até a China que é bem permissiva do ponto de vista ambiental já o proibiu, mas por aqui a venda persiste.

“É uma barbárie”, definiu a geógrafa Larissa Bombardi, em entrevista ao “Repórter Brasil”, no ano passado.

Nos últimos anos, Larissa se dedica a estudar o impacto do uso dos agrotóxicos no país.

Ela coordena o Laboratório de Geografia Agrária da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em especial o mapeamento dos casos de intoxicação. São pelo menos oito brasileiros contaminados por dia.

Mas isso é a só a ponta do iceberg. Calcula-se que para cada caso de intoxicação no Brasil existam 50 outros não notificados. Sem contar as doenças crônicas provocadas por esses pesticidas não são sequer estudadas como deveriam.

É bom lembrar que a intoxicação não atinge apenas a população rural. Mesmo as pessoas que moram e trabalham na cidade, em áreas próximas de cultivos onde há pulverização, estão suscetíveis.

Isso ficou bem demonstrado em um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso que apontou contaminação de leite materno com agrotóxicos de mães que moravam na zona urbana.

Sem falar que alguns dos venenos usados no combate do mosquito Aedes aegypti, como o malathion, pyriproxyfen e fenitrothion, também são agrotóxicos. Lobby para o saneamento básico ninguém faz.

Do ponto de vista de saúde pública e ambiental, é insustentável qualquer argumento em defesa da atual política de agrotóxicos no país. Por que não buscar os padrões de segurança empregados na Europa?

As mudanças propostas na regulação sinalizam mais retrocessos. O modelo não tem nada a ver com saúde. É claramente uma opção política, relacionada à pressão da bancada ruralista e das empresas de agrotóxicos. Ponto.



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