Após aumento de mortalidade infantil, país pode voltar para ‘Mapa da Fome’ – 17/07/2018 – Cláudia Collucci

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Muita gente se surpreendeu com a reportagem desta Folha revelando o aumento da taxa de mortalidade infantil em 2016, após 26 anos de queda. Da mesma forma causou espanto o fato de o país registrar em 2017 o índice mais baixo de vacinação de crianças dos últimos 16 anos. 

Mas para quem atua na saúde pública ou acompanha de perto o impacto da recessão e do ajuste fiscal nas políticas sociais, esses retrocessos já eram esperados. Vários alertas foram feitos nos últimos dois anos.

Um recente estudo publicado na revista americana PLoS Medicine foi além. Fez uma projeção muito bem embasada dando conta de que o Brasil poderá ter até 20 mil mortes a mais de crianças nos próximos 12 anos caso os cortes persistam nos programas Saúde da Família e Bolsa Família.

Também não é coincidência o fato de isso tudo acontecer no mesmo período em que 1,5 milhão de brasileiros passaram a viver na pobreza extrema.

Segundo dados da LCA Consultores divulgado pelo IBGE, havia no início de 2017 13,34 milhões de pessoas vivendo nessa condição. No final do mesmo ano, eram 14,83 milhões, o equivalente a 7,2% da população.

A próxima morte anunciada deverá ser a do Brasil voltando a figurar no indesejado mapa da fome da ONU (Organização das Nações Unidas), de onde saiu em 2014. O mapa reúne países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável.

Há um ano, um relatório de 20 entidades da sociedade civil já alertava para esse risco caso o governo brasileiro prosseguisse cortando verbas políticas sociais, como o Bolsa Família.

Em entrevista à Agência Pública, o economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), da ActionAid Brasil e que fez parte da equipe que elaborou o documento, disse que a advertência sobre a volta do país ao mapa da fome já é quase uma certeza.

A palavra final, porém, só deve vir com a publicação da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) no final de 2018.

Segundo Menezes, o Brasil assiste a um empobrecimento muito acelerado da população, especialmente em razão do desemprego. Em número de pessoas em situação de extrema pobreza, é como se tivéssemos voltado 12 anos atrás.

Dados da Fundação Abrinq apontam, inclusive, que a desnutrição infantil crônica retornou aos níveis de 2013, com taxa de 13,1%. Somada aos casos de desnutrição severa, o país tem 17,6% das crianças com problemas sérios de nutrição.

Há evidências de sobra de que “deu ruim”, como diz o povo, e que é preciso encontrar saídas urgentes para reverter esses indicadores alarmantes. Quais os caminhos? Espero que os nossos presidenciáveis tenham essa resposta.



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