Comida adaptogênica ganha fãs com promessa de vida menos estressante – 17/07/2018 – Equilíbrio e Saúde

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Temporada sim, outra também, ganham os holofotes substâncias e alimentos que prometem praticamente milagres para quem está estressado, mal-humorado, com cólicas fortes e enfrentando outros contratempos provocados pela correria da vida moderna.

A bola da vez são as plantas e ervas adaptogênicas, que buscam restaurar o equilíbrio em áreas do corpo supostamente desbalanceadas. “Como o nome diz, elas ajudam o organismo a se adaptar”, resume Serena Goldstein, formada em psicologia e biologia na universidade estadual do Arizona e médica especializada em naturopatia pela National College of Natural Medicine.

No caso, a se adaptar ao estresse do dia a dia, diz. “Nós vivemos numa sociedade e em um mundo onde tendemos a ficar mais estressado do que nunca, e isso pode derrubar as pessoas.” 

É aí que entrariam os adaptogênicos, que, segundo ela, ajudam a regular o hipotálamo, as glândulas pituitária e adrenal e o sistema simpático, afirma. 

Apesar do entusiasmo, há pouquíssimos estudos científicos que respaldem os supostos efeitos benéficos.

Uma revisão de estudos publicada em de 2010 e comandado por Alexander Panossian, doutor em química orgânica que atualmente trabalha na EuroPharma, e Georg Wikman, fundador do Instituto Internacional de Ervas da Suécia, sumarizou os supostos benefícios dessas plantas

Segundo as conclusões, baseadas em estudos em animais e em células nervosas isoladas, os adaptogênicos teriam propriedades neuroprotetoras, antifadiga, antidepressiva e estimulante ao sistema nervoso central. 

Não é qualquer planta que pode ser considerada adaptogênica, diz Will Cole, formado em ciências da saúde pela Southern California University of Health Sciences e empreendedor na área de medicina natural. Há um checklist. 

“Para ser considerada adaptogênica, uma planta ou erva deve atender três critérios. Elas devem ser geralmente seguras para todos, atuar para ajudar o corpo a lidar com o estresse e elas têm de ajudar a equilibrar os hormônios”, diz.

Em resumo: não é fácil preencher todos os requisitos. Algumas plantas se enquadram, como o ginseng asiático (Panax ginseng), que hipoteticamente contribui para a resistência física, ajuda na rapidez do raciocínio e tem propriedades antioxidantes. 

Ou o alecrim, bastante usado como tempero, que seria benéfico ao coração e ao fígado, ajudando na digestão.

Mas talvez uma das plantas mais pop seja a ashwagandha, conhecida na medicina tradicional ayurvédica, com origem na Índia. Também chamada de ginseng indiano, há relatos de que quem consome a erva apresenta melhoras na forma como lida e vivencia o estresse. Também ajuda a manter a mente afiada e aumenta a disposição.

A moda foi além dos pequenos comércios. Grandes marcas também pegaram carona na onda dos adaptogênicos. A empresa Global Healing Center, por exemplo, usou as ervas ou uma combinação delas para dar origem a fórmulas e suplementos alimentares.

Os produtos prometem energizar a função mitocondrial e resguardar o DNA de danos (Cell Fuzion), ajudar o fígado no processo de desintoxicação (Livratrex) e mesmo promover a felicidade e melhorar as funções cerebrais (Neurofuzion).

Na Moon Juice, há lanches adaptogênicos (como salgadinhos arco-íris à base de sementes) e produtos de beleza (um serum com extrato de cogumelo que reduz as linhas de expressão). Amanda Chantal Bacon, fundadora da empresa, diz que os adaptogênicos fazem parte de uma “prática diária inegociável.”

“Eles promovem a habilidade do corpo de lidar com o estresse e de se recuperar dele ao impulsionar as reservas adaptativas nos sistemas biológicos de cada um”, tenta explicar.

Para quem não gosta da ideia de ingerir pílulas, há também a versão em pó. Dá para misturar na comida e, na Chillhouse —espécie de spa-salão de beleza-café em Nova York—, nas bebidas também.

As receitas têm nomes divertidos, como “Dê-me vida”, “Me acalme” ou “Faça-me brilhar” —o primeiro e o último são os mais populares. A reportagem testou o “Faça-me brilhar”. O café com o preparado ganha uma tonalidade cinzenta, e o pó fica acumulado nas laterais do copo de papel —talvez você esteja desperdiçando brilho. Mas é bom. 

O cliente que quiser levar para casa os preparados tem que desembolsar US$ 30 por um potinho de 45 gramas.

Mas não basta apenas escolher as plantas pelo efeito, afirma a naturopata Serena Goldstein. “É um tratamento que funciona em conjunto com outras coisas. Não é só tomar algumas ervas e plantas e está tudo bem. E também não dá resultado da noite para o dia.”

Ela ressalta que o paciente precisa ficar atento ainda a interações com outros medicamentos que estiver tomando. Grávidas e idosos também devem ter cuidado, diz. É preciso ainda saber se não há alergias que possam, em vez de melhorar a saúde, piorá-la.

Alguns especialistas afirmam que falta comprovação dos efeitos de adaptogênicos. Para Celso Cukier, nutrólogo do hospital São Luiz, não há evidências de que essas plantas e ervas funcionem. “O conceito é de 1947, não é novo. Mas ainda faltam estudos para estabelecer em que doses têm efeito, se o uso deve ser diário”, afirma.

Há ainda questionamentos em relação à origem dos adaptogênicos. Cukier lembra que uma erva plantada em solo americano pode apresentar propriedades diferente de uma plantada na Europa ou na América do Sul, por fatores como solo e clima.

“Não há um estudo que realmente demonstre uma condição terapêutica”, diz. “Existem teorias sobre a utilização dessas plantas na prevenção e reforço imunológico, mas onde foram separados dois grupos, sendo um de controle, para confirmar os resultados positivos do uso de adaptogênicos?”, questiona.



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