F5 – Viva Bem – Dia dos Pais: Conheça histórias de avôs que cuidam dos netos como se fossem seus filhos

0
458


Descrição de chapéu

Agora

São Paulo

Quando o motorista Clodoaldo Jesus Napoleão, 63, viu-se desempregado e sem dinheiro para comprar o leite da neta Marina, não teve dúvidas: foi até um brechó e vendeu os próprios sapatos. Conseguiu R$ 50 e garantiu o alimento da menina. “A Marina é a minha vida”, destaca.

Napoleão faz parte de um time especial de avôs: aqueles que, na ausência do pai biológico, assumem a função paterna. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes ao ano de 2015, os mais recentes disponíveis, existem no Brasil 11,6 milhões de famílias compostas por mães solteiras, ou seja, mulheres que não têm cônjuge para ajudar na criação de seus filhos.

Em muitos desses casos, as mulheres contam com o apoio dos seus próprios pais, os avós das crianças. Foi assim com a auxiliar administrativa Juliana Napoleão, 30, mãe de Marina, hoje com quatro anos. “Desde que eu soube da gravidez, o meu pai e a minha mãe estiveram ao meu lado, acompanhando toda a gestação, me levando ao médico e me ajudando no que fosse preciso.”

Logo que nasceu, a bebê chorava muito, e era o avô Napoleão o responsável por pegá-la no colo para ninar. “Inventava músicas e cantava para ela. Comigo ela não chorava”, relata ele. O motorista lembra que o começo foi difícil, especialmente na área financeira. Houve um momento em que todos na casa ficaram desempregados. O desespero bateu à porta de Napoleão. Foi quando, então, ele decidiu vender os sapatos para comprar leite para a netinha.

“Apesar das dificuldades, a vinda dela é uma alegria enorme para a nossa família. É muito amor e carinho. Ela me faz muito bem”, destaca ele. Na última semana, brincando de imitar vídeos de ginástica olímpica no YouTube, Marina caiu e quebrou o nariz. O vovô Napoleão fez questão de ficar bem pertinho dela para garantir que a neta se recuperasse. “Deixo de ver jogos de futebol, de ver novela, qualquer coisa, só para ficar com ela”, conta.

A psicóloga e neuropsicóloga Elaine Di Sarno destaca a importância da figura paterna para o desenvolvimento social e emocional das crianças, para a facilidade de aprendizado e para a autonomia. Ela cita um estudo divulgado recentemente, pela Associação Americana de Psicologia, que mostra que as memórias de uma relação calorosa com o pai durante a infância estão diretamente relacionadas com a capacidade do adulto de enfrentar o estresse do dia a dia.

“Essa investigação aponta também que a participação efetiva do pai na vida de um filho promove segurança, autoestima, independência e estabilidade emocional”, complementa.

Elaine ressalta que esse papel é simbólico e não precisa, necessariamente, ser exercido pelo pai biológico. “Pai é aquele com quem a criança se identifica. É quem ela ama. Pode ser um avô, um novo parceiro da mãe que venha a construir um vínculo com a criança, ou mesmo pais adotivos. Todos podem assumir efetivamente essa função.”

Isso não significa mentir para a criança ou fazer com que ela chame o avô de pai, por exemplo. Vice-presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São de Paulo, Elizandra Souza recomenda que a verdade seja sempre dita. “Mas não precisa ser de forma agressiva”, pondera.

Em caso de pais biológicos que abandonaram o filho ou que são pouco presentes, é importante explicar o que aconteceu, mas em uma linguagem que seja compreensível para a criança e correspondente à idade e ao entendimento dela. Para as pequenas, por exemplo, não é necessário entrar em muitos detalhes. “Não há necessidade de uma única conversa para dizer o que está acontecendo. As coisas devem ser ditas aos poucos, à medida que a criança vai compreendendo melhor”, orienta a profissional.

Já no caso de pai biológico que morreu, a psicóloga Elaine indica que é importante que ele seja sempre lembrado e celebrado pela mãe e pelos familiares. “Os elogios à personalidade e às características do pai vão ajudar a criança a ter segurança e autoconfiança.”

É assim que a empresária Fernanda Régis Abati Volpato, 40, tem procurado agir com o filho, Fernando, três anos. O pai do menino, Carlos Volpato, morreu quando o bebê tinha quatro meses. Desde então, ela conta com o auxílio do próprio pai, Fernando Alves Abati, 68 anos, para criar o filho.

“É uma relação de amor muito grande que avô e neto nutrem um pelo outro. Moramos em um mesmo condomínio [cada um em uma casa], e ele está com a gente todos os dias. Desde que o meu marido morreu, o meu pai tenta compensar isso sendo muito próximo do meu filho”, conta Fernanda.

O avô também se faz presente nas festas de Dia dos Pais da escola, por exemplo. “Mas o Fernandinho sabe que ele é o avô, porque sempre falamos do papai dele”, destaca a empresária.

Fernando comenta que não mede esforços para agradar ao neto. “Com a perda precoce do meu genro, essa aproximação com o Fernandinho se fortaleceu. Estamos aqui para somar”, diz.

É IMPORTANTE EDUCAR

Sabe aquela história de que na casa dos avós pode tudo? Como fica, então, o papel dos avôs que exercem também a função paterna? Eles podem ser mais permissivos com os netos, ou o ideal é que tenham uma atitude mais educativa, chamando a atenção da criança quando necessário?

Segundo os psicólogos, o pai é o representante dos limites, é aquele que vai quebrar a simbiose entre a mãe e o bebê. A psicóloga Salma Cortez explica que limites bem colocados são saudáveis e importantes no processo de criação. “Ajudam a criança a desenvolver resiliência e resistência à frustração.”

Dessa forma, a recomendação dos especialistas é que os avôs que assumem a guarda da criança, formalmente ou não, mantenham a postura de educar. Tudo vai depender, porém, do que for conversado com a mãe. Em muitos casos, ela vai preferir ser a única responsável por esse papel de definir os limites, e ao avô vai caber a parte mais afetiva da figura paterna. “Na casa dos avós, vale, sim, dar bastante amor, carinho e orientação”, acrescenta a psicóloga Elaine Di Sarno.

É assim que funciona no caso do avô de Fernando, que admite ter dificuldades para falar ‘não’ ao neto. No quarto dele, o menino pode fazer tudo. “Não só ele como o meu outro neto, Heitor, adoram vir aqui, pular no colchão de ar que coloco ao lado da minha cama e ver desenhos. Parece que o meu quarto tem mel. Fica tudo de ponta-cabeça”, relata.

Já o avô Walter Carlos Pondioli, 62, diz que procura ter uma postura mais educativa com o neto Luis, 12, criado por ele como um filho, desde que nasceu. “Dentro do possível, tento orientá-lo no dia a dia, sempre conversando e explicando quando ele faz algo que não é legal”, relata.

A mãe do menino e filha de Pondioli, a analista fiscal Mariana Pondioli, 31, destaca a importância do avô na criação do menino. “Eles têm uma relação muito forte, mesmo. É ele quem busca o Luis na escola, acompanha nos treinos do futebol, ajuda com a lição de casa, leva ao médico. O avô é mais até do que um pai. Ele não mede esforços para atender o meu filho”, conta.

Luis faz questão de sempre que possível retribuir o amor do avô, seja no Dia dos Pais ou em outras datas comemorativas. “Eu sou muito grato pelo que ele fez por mim durante todos estes anos, me ajudando quando precisei, me dando conselhos, entre muitas outras coisas. Eu o amo muito, mas muito mesmo”, reforça o menino.

Há vários casos de personalidades do meio artístico e esportivo que cresceram sem o pai biológico e encontram nos avôs essa figura paterna. Um exemplo é o jogador Marcelo, 30, da seleção brasileira e do Real Madrid. Ele já contou em entrevistas e no seu canal no YouTube a importância que o avô Pedro teve em sua formação e para que ele pudesse realizar o sonho de ser jogador de futebol. “Ele foi tudo para mim”, disse.

O atleta Thiago Braz, 24, que conquistou a medalha de ouro no salto com vara na Olimpíada do Rio, em 2016, também foi educado pelos avós e costuma homenageá-los após obter vitórias (leia mais nesta página).

A psicóloga Salma Cortez destaca que ser criado pelos avós tem como grande vantagem o fato de que eles já têm mais experiência e sabedoria de vida. “Isso pode proporcionar mais segurança à criança no processo de criação”, afirma a profissional.

Outro ponto positivo é que esse neto aprenderá desde cedo a respeitar os mais velhos e a entender as limitações físicas da idade. Por outro lado, ainda que possa ser desgastante para o avô, em muitos momentos, ter a responsabilidade de cuidar de uma criança, a psicóloga Priscila Junqueira também salienta os aspectos positivos dessa convivência, como um maior bem-estar físico e mental.

“Existem pesquisas que falam também em um menor risco para o desenvolvimento de Alzheimer”, revela. Ela destaca, ainda, outro benefício: o idoso passa a se sentir mais útil na família.

Todos os vovôs entrevistados garantem que o amor incondicional e a oportunidade de estar perto dos netos compensa qualquer sacrifício.“Tudo o que eu puder fazer pelo meu neto, eu farei”, conclui Walter Carlos Pondioli.


A IMPORTÂNCIA DA FIGURA PATERNA

– Pai é aquele com quem a criança se identifica. É quem ela ama, e não, necessariamente, o pai biológico

– Ter a presença de uma figura paterna (que pode ser representada pelo avô) é fundamental para o desenvolvimento emocional e psicológico da criança 

– Estudo da Associação Americana de Psicologia mostra que as memórias de uma relação calorosa com o pai durante a infância estão diretamente relacionadas com a capacidade de o adulto enfrentar o estresse do dia a dia

– A vantagem de ter avôs exercendo o papel de pai é que eles têm mais experiência e vivência, o que pode demonstrar segurança no processo de criação dos netos

– Crianças que possuem relação próxima com os avós durante o crescimento aprendem a respeitar as pessoas mais velhas e suas limitações

– Para os avôs, o contato frequente com o neto promove bem-estar físico e emocional, além da sensação de que é útil 

Como avôs-pais devem agir:

– Mesmo que os avôs cuidem da criança, é importante que sua posição de avôs seja preservada

– O ideal é que os avôs que assumiram a função paterna tenham também papel educador, sabendo impor limites para os netos, a fim de que eles possam se desenvolver bem emocionalmente

– Sempre fale a verdade para a criança. Não esconda quem é o pai biológico, mas explique o que aconteceu, aos poucos, e de acordo com a linguagem e a maturidade do neto

– Dê muito amor, carinho e orientação 


Agora



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here